Sororidade(diversidade) no setor portuário
- Flavia Nico
- 1 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Tradicionalmente masculino, o setor portuário e marítimo tem presenciado um crescimento da presença feminina — ainda tímido, mas real. Na 2ª Pesquisa sobre Equidade de Gênero no Setor Aquaviário, divulgada pela ANTAQ em abril de 2025, as mulheres representam 17,8% dos empregos no setor portuário, um aumento de apenas 0,5 ponto percentual em relação a 2022. Em cargos de gerência, houve avanço (de 22,5% para 25%), mas, na direção, houve queda (de 16,7% para 15%). Nos Conselhos de Administração, elas são 16,8%; nos Conselhos de Autoridade Portuária/CAP, apenas 8,4%. Quando olhamos para os cargos operacionais, as mulheres são 10%; nos administrativos, 40%. Já nas autoridades portuárias, compõem 26,3% do quadro geral, mas só 12,5% da alta direção. No modal de navegação interior, a situação é ainda mais desigual: 10,1% no total e apenas 5,6% na direção. Pior ainda, caiu o número de empresas que afirmam adotar políticas de equidade de gênero: de 90,8% em 2022 para 52,5% em 2024. A igualdade salarial também encolheu, de 68,6% para 37,3%, e as ações de orientação para inclusão seguem estagnadas.
Esses dados são importantes porque revelam que, apesar de avanços pontuais, a inclusão de gênero no setor aquaviário brasileiro ainda enfrenta barreiras estruturais. Felizmente, iniciativas vêm sendo implementadas por órgãos como ANTAQ e Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR), a exemplo da criação do Comitê-Geral de Diversidade e Equidade, do Guia de Enfrentamento ao Assédio no Setor Aquaviário, da categoria "Igualdade de Gênero" no Prêmio ANTAQ e no Portos + Brasil.
Mas não basta diversidade — precisamos falar de inclusão. Diversidade é termos pessoas diferentes no mesmo ambiente. Inclusão é garantir que essas diferenças sejam respeitadas e tenham oportunidades reais de florescer. A equidade exige o reconhecimento de que as condições de partida são desiguais e que, por isso, oferecer o mesmo para todos não garante os mesmos resultados. A ideia de tratar igualmente homens e mulheres como se partíssemos do mesmo lugar é um dos maiores equívocos. Igualdade de direitos, sim. Mas com tratamento que leve em conta os desafios específicos enfrentados por mulheres — especialmente em setores historicamente masculinos.
A realidade das mulheres no setor aquaviário é marcada por desafios invisíveis. A localização dos portos, muitas vezes distante dos grandes centros urbanos, a dinâmica de viagens constantes, os horários irregulares e a ausência prolongada de casa impactam diretamente na possibilidade de conciliar carreira e vida pessoal. As múltiplas jornadas e os papéis sociais que desempenhamos — muitas vezes como cuidadoras, mães e responsáveis pela gestão do lar — não são levados em conta nas estruturas tradicionais de trabalho.
Além disso, há um fator que pouco se debate: a própria relação entre as mulheres no ambiente profissional. A cultura patriarcal que predomina nas organizações também se manifesta nas relações femininas, muitas vezes marcadas por comparação, disputa e julgamento. É o famoso dilema entre parceria e ameaça. O episódio da série "The White Lotus" que retrata essa tensão entre amizade e rivalidade entre mulheres poderia facilmente ser ambientado em um terminal portuário ou numa reunião de diretoria.
Por isso, precisamos falar de sororidade. Mais do que um conceito bonito, sororidade é prática cotidiana de apoio mútuo, empatia, lealdade e cooperação entre mulheres. É reconhecer que o sucesso de uma não ameaça o das outras — pelo contrário, abre caminho. É entender que não basta chegar à mesa: é preciso puxar outra cadeira. Se queremos mudar o setor, é essencial que aquelas que já ocupam espaços de liderança atuem como pontes, e não como barreiras. Mulheres puxando outras mulheres. Porque quando uma sobe, puxa a outra. E é assim que, juntas, subimos todas.
*Publicado originalmente em A Tribuna|Santos.SP (27/06/2025)






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