Previsibilidade e Inovação na Logística Portuária
- Flavia Nico
- 9 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Um caso recente do Espírito Santo mobilizou a comunidade de alguma forma envolvida com a logística e o comercio exterior. Entre metade dos anos 2023 e 2024 um conjunto de eventos particulares levou a uma situação de crise logística local.
A exportação de café alcançou um recorde histórico de mais de 8 milhões de sacas no período e tivemos problemas com a infraestrutura para comportar o volume das exportações. Ao mesmo tempo, as importações de automóveis cresceram cerca de 134%, tornando-se o principal item de importação. A capacidade de armazenagem de veículos foi excedida gerando congestionamentos e atrasos. Somou-se um descompasso entre tamanhos de contêineres, afetando a exportação das rochas ornamentais.
Para enfrentarmos o elefante no meio da sala, destaco alguns pontos de atenção – ou de lições aprendidas.
O primeiro é a previsibilidade. Precisamos de uma visão de médio e longo prazos com cenários possíveis. Falo do conhecimento da carga, da previsão de chegada/saída, tipo e volume. Uma espécie de mercado futuro acompanhado ou monitorado pelos players envolvidos. A comunidade local precisa conhecer a real capacidade dos armazéns e pátios em tempo real, alinhamento que garantirá o fluxo de cargas sem surpresas e filas de espera. Nessa mesma linha, o compartilhamento de informações sobre a disponibilidade de infraestruturas portuárias e navegação disponíveis.
Isso é logística, é uma cadeia logística, os elos precisam estar azeitados, funcionando como peças de uma mesma máquina. Nenhuma novidade aqui. O desafio está mesmo na implementação desta previsibilidade: como mexer nos pontos certos e fazer a articulação entre diferentes dados e múltiplos atores para fluir informação e dados. Em outras palavras, como termos previsibilidade?
É aí que entro com o segundo aspecto a ser destacado: inovação. Esse é um dos caminhos necessários e fundamentais para conseguirmos a previsibilidade que vai garantir a eficiência e eliminar/reduzir gargalos.
Estamos em um momento extremamente favorável à inovação no setor logístico portuário. Podemos lançar mão de recursos e instrumentos tecnológicos. Temos um conjunto de sistemas preditivos, plataformas digitais, inteligência artificial, para previsão de demanda e de movimentação. Há um movimento claro de modernização digital portuária.
Penso aqui em iniciativas que vão desde a automação, passando pela digitalização e chegando no uso da IA. Os softwares e sistemas de gestão das operações que ajudam a reduz tempo de permanência de cargas e navios, eficiência no giro de estoques. O uso de blockchain é um exemplo de como a inovação tecnológica pode trazer mais rastreabilidade, segurança e eficiência ao fluxo de cargas do início ao fim, da origem ao destino. São muitas as possibilidades.
O Port Community System (PCS) é uma solução estratégica que teria sido muito útil no caso relatado. Trata-se de uma plataforma digital integrada que conecta os atores da comunidade portuária em um ambiente colaborativo de troca de informações em tempo real. O desafio do PCS, entretanto, é grande: envolve a integração entre sistemas privados e públicos e alinhamento entre múltiplos stakeholders.
A ausência de coordenação estratégica entre os elos da cadeia é parcialmente resolvida pela tecnologia. Os gargalos que enfrentamos não são apenas operacionais. Logo, aliada às novas tecnologias, a inovação deve ser também social! Hoje, cada ator — operador portuário, autoridade aduaneira, transportador, armador, governo estadual ou autoridade portuária — age com suas prioridades e fluxos próprios, sem uma instância efetiva de integração.
Mais uma vez, chegamos à necessidade da renovação da governança da comunidade portuária.
*Publicado originalmente em A Tribuna|Santos.SP (29/07/2025)






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