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A Relação Porto-Oceano

  • Foto do escritor: Flavia Nico
    Flavia Nico
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

A relação porto-cidade já é um tema presente em planejamentos urbanos e portuários e uma preocupação constante na agenda estratégico-portuária. O olhar para fora dos muros na direção do território é uma conquista recente no Brasil. A temática ganhou fôlego com as iniciativas ESG e com a popularização da Agenda 2030.

 

Por outro lado, a relação porto-oceano começa a chamar atenção a partir das iniciativas globais de descarbonização. Os cuidados e iniciativas a partir do cais têm sido pautados pela legislação ambiental nacional e internacional - uma lista do que fazer e não fazer, sob olhar atento dos órgãos fiscalizadores. Logo, o tema não é novo.

 

A novidade são os contornos da relação porto-oceano: a associação sustentabilidade e inovação com o foco no mar. O fiel da balança é a mudança climática. O gestor portuário que ainda não entendeu que um porto verde e um porto inteligente são duas faces da mesma moeda e que a mudança climática impõe mudanças urgentes e necessárias, precisa revisitar seu planejamento estratégico.

 

A relação porto-oceano está pautada por dois temas centrais: a economia azul e a revolução da navegação verde. Assim como na relação porto-cidade, é um novo campo para iniciativas com impactos positivos e com oportunidades de ganhos econômicos para o negócio portuário.

 

O setor marítimo-portuário é o 3º que mais movimenta a economia do mar, campo econômico cujas atividades estão relacionadas aos oceanos, mares e áreas costeiras. A exploração e uso sustentável desses recursos renomeia a economia do mar para economia azul.

 

O mesmo porto que atua como motor de desenvolvimento local para os territórios pode ser hub econômico para potencializar a economia azul. O Porto de San Diego sedia uma aceleradora de negócios e programas educacionais voltados para a economia azul. O Porto de Durban optou por programas de proteção de recifes com rotas turísticas e programa ambiental.

 

A gestão portuária pode vislumbrar oportunidades junto às novas indústrias que têm se formado, como energia eólica offshore, energia das marés e das ondas, aquicultura offshore, cruzeiros e biotecnologia marinha. O Porto de Los Angeles incentivou iniciativas de aquicultura e revitalização de ecossistemas costeiros com fins comerciais e turísticos.  O Porto de Vigo apostou no desenvolvimento de biotecnologia marinha numa parceria público-privada.

 

A navegação está na dianteira de indústrias globais na transformação verde.

A IMO recém-definiu limites e metas de emissões de gases de efeito estufa (GEE), um sistema de precificação e comércio entre navios, incluindo sanções financeiras e incentivos verdes. Aplicou ao transporte marítimo a tendência de formação de novos mercados para as novas energias.

 

O IMO Net-Zero Framework prevê a redução gradual de emissões pelos navios com arqueação bruta superior a 5 mil toneladas com metas de 20% até 2030, 70% até 2040 e net-zero em 2050. O Acordo é histórico e vinculante, além de importante sinalização para os portos de que a descarbonização já é uma realidade no setor marítimo.

 

A governança climática global é uma lufada de ar fresco num cenário geopolítico no qual os Estados Unidos sinalizam para o rompimento do sistema multilateral. Somos obrigados a relembrar que a integração sistêmica e complexa trazida pela outrora famosa globalização é um processo e, como tal, segue em curso.

 

Como parte de um sistema, cabe ao setor portuário brasileiro encontrar formas de construir iniciativas de descarbonização de forma integrada. Aos tradicionais desafios de como melhor encaminhar as interfaces cidade e porto somam-se aqueles trazidos pela mudança climática: Descarbonizar e Adaptar.

 

A relação porto-oceano é uma aposta certa na adoção de medidas urgentes e necessárias. Pode ser também parte de uma estratégia inovadora, que potencializa ganhos econômicos a partir de novas oportunidades trazidas pela sustentabilidade.

*Publicado originalmente em A Tribuna|Santos.SP (17/04/2025)

 
 
 

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©2025 por Flavia Nico.

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